Rosi Ribeiro
Pesquisa em Educação Inclusiva, Literatura, Tanatologia e Arte-Educação. Fundadora da Tulha Ateliê Editora e autora de "O Castelo de Porta Amarela".
15 outubro 2026
A PONTE POSICIONADA - Ensaio Academico -
Rosi Ribeiro
Pedagoga, Jornalista, Especialista em Educação Inclusiva (AEE/TEA), Psicopedagogia e Tanatologia. Fundadora da Tulha Ateliê Editora.
RESUMO
Este ensaio acadêmico analisa o processo de constituição do vínculo pedagógico em situações de desorganização comportamental e crise no contexto da Educação Inclusiva, tomando como aporte teórico-metodológico a Psicopedagogia Operativa e a Teoria do Link/Vínculo de Enrique Pichon-Rivière. A partir de um relato de experiência crítica em ambiente escolar, o estudo tensiona o paradigma tradicional que concebe o vínculo como um constructo dependente exclusivamente do tempo cronológico de convivência e do conhecimento prévio da rotina familiar. Aponta-se que a emergência do vínculo pode ocorrer de forma instantânea através da constituição de uma "Ponte Posicionada" — uma intervenção operativa caracterizada pela firmeza, pela modulação sensorial e pelo acolhimento diretivo. O texto demonstra como a reestruturação do Esquema Conceitual, Referencial e Operativo (ECRO) do mediador permite ressignificar o surto, transformando a crise de um evento disruptivo em um dispositivo de reconexão subjetiva, aprendizagem e mediação interpessoal, inclusive na articulação com os professores especialistas e a turma.
Palavras-chave: Educação Inclusiva. Vínculo Operativo. Pichon-Rivière. ECRO. AEE. Modulação Sensorial.
1. INTRODUÇÃO
A prática pedagógica no Atendimento Educacional Especializado (AEE) e na mediação da Educação Inclusiva depara-se, cotidianamente, com episódios de desorganização neurocomportamental severa. Historicamente, a literatura pedagógica e a práxis docente sedimentaram a crença de que a edificação do vínculo afetivo-pedagógico — condição sine qua non para a mediação eficaz — é fruto indissociável da convivência prolongada, da anamnese detalhada e do estreitamento de laços com a estrutura familiar do estudante.
Embora esse percurso gradual constitua uma dimensão relevante da investigação psicopedagógica, o presente ensaio propõe um tencionamento dessa premissa. Objetiva-se demonstrar que o vínculo não se restringe a uma acumulação cronológica, mas configura uma estrutura operativa emergente que pode ser pactuada no instante da intervenção, desde que o mediador assuma uma postura de firmeza acolhedora e de reordenação do campo caótico.
Para fundamentar essa análise, recorre-se ao referencial da Psicopedagogia Operativa de Enrique Pichon-Rivière, especificamente no que tange à dinâmica do Esquema Conceitual, Referencial e Operativo (ECRO) e à Teoria do Vínculo.
2. O CASO EMPÍRICO: A CRISE E O RUPTURA DO PARADIGMA
A cena que deflagrou a revisão conceitual tratada neste ensaio ocorreu no corredor de uma unidade escolar. Um estudante em estado de crise psicomotora e sensorial extrema promovia a desorganização do espaço físico, derrubando mesas, cadeiras e recipientes de lixo. A força vetorial da crise e o ruído gerado impunham aos profissionais presentes um estado de hesitação, medo e paralisia frente à iminência de lesões físicas.
Frente ao desamparo do ambiente, a intervenção ocorreu por meio de um ímpeto operativo não planejado previamente, contudo dotado de precisão mediacional. Ao adentrar a sala, a postura corporal firme e a emissão de um comando claro e imagético romperam o circuito da crise:
"Eu vou desenhar um monte de corações, bem ali naquela mesa que ainda está de pé. E você, vai fazer o que?"
O estancamento imediato do comportamento disruptivo e a fixação do contato ocular da criança validaram a passagem da reatividade para a adesão. Sequencialmente, ao recuar para o fundo da sala e ofertar comandos estruturados de organização espacial ("Coloque esta mesinha aqui, uma do lado da outra"), o estudante passou a atender a cada diretriz com precisão.
A eficácia dessa abordagem com um estudante com o qual o tempo de convivência era nulo e sobre o qual não havia histórico familiar prévio desconstruiu a crença de que o vínculo exige maturação temporal. O vínculo revelou-se, portanto, como uma ponte estabelecida na instantaneidade do ato de presença.
3. ANÁLISE TEÓRICA: A OPERACIONALIZAÇÃO DO ECRO PICHONIANO
A leitura psicopedagógica desse episódio encontra amparo na teoria de Enrique Pichon-Rivière (2005). O autor define o ECRO como o conjunto articulado de conceitos, referenciais e vivências que orientam a apreensão da realidade e a ação do sujeito no mundo.
O ECRO Preexistente: O esquema prévio da docente balizava-se na premissa do vínculo como construção lenta e familiar. Em situações de crise extrema sem histórico prévio, esse referencial apontava para o medo e o recuo defensivo.
A Ação Operativa: Diante do susto, ocorreu uma reestruturação do referencial interno. A tomada de decisão de aproximar-se com autoridade serena e propor uma tarefa simbólica e motora configurou uma operação transformadora do meio.
A Ressignificação Conceitual: O sucesso da operação (a criança saindo do caos e atendendo aos comandos) modificou retroativamente o conceito de vínculo no referencial da educadora.
O vínculo pichoniano, compreendido como uma estrutura complexa de comunicação e aprendizagem, provou ser prescritivo e imediato. Não foi a repetição temporal que conteve o surto, mas o posicionamento correto no tempo presente. A ordenação do espaço e a oferta de uma âncora simbólica (o desenho dos corações e a arrumação das mesas) funcionaram como reguladores externos da função executiva desorganizada do estudante.
4. DESDOBRAMENTOS PRÁTICOS: A "PONTE POSICIONADA" E A TRANSDISCIPLINARIDADE
A consolidação do conceito de Ponte Posicionada estende-se para além dos momentos de contensão de crise individual. No cotidiano escolar, essa postura atua como um elemento facilitador da transdisciplinaridade, como se observa nas aulas de Educação Física e componentes curriculares especializados.
Frequentemente, docentes especialistas sentem-se desprovidos de ferramentas pedagógicas para manejar as especificidades de estudantes com deficiências graves ou desorganizações sensoriais. Nesses cenários, a atuação da mediadora como ponte cumpre três funções simultâneas:
Modulação Direta: Acompanhar o estudante na realização das atividades motora e expressivamente.
Inclusão Paritária: Orientar os pares neurotípicos através de comandos claros sobre como auxiliar e interagir com o colega.
Tutoria Docente: Oferecer suporte técnico e comportamental ao professor especialista, criando um ambiente seguro para a regência da aula.
Dessa forma, o vínculo constituído não isola a criança com a mediadora, mas expande-se como um circuito de corresponsabilidade afetiva entre todos os atores da comunidade escolar.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência analisada demonstra que a inclusão escolar genuína não requer o domínio prévio de todas as variáveis e respostas teóricas, mas fundamenta-se na capacidade do educador de posicionar-se de maneira firme, empática e operativa.
A desorganização e a crise não devem ser lidas como barreiras intransponíveis ou fracassos do processo inclusivo, mas como convocatórias para a edificação de pontes. O aprendizado central extraído da práxis e respaldado pela teoria de Pichon-Rivière indica que a contenção do caos não exige o desmantelamento da estrutura, mas sim a presença serena de um mediador que se posicione no momento exato.
A "Ponte Posicionada" representa, em última análise, a fusão entre a intuição sensível e o rigor conceitual, garantindo que o estudante encontre no educador a segurança necessária para reorganizar seu estado interno, saindo da tempestade sensorial e reconectando-se com o ato de aprender.
REFERÊNCIAS
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Teoria do Vínculo. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O Processo Grupal. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Rosi Ribeiro
Pedagoga, Jornalista, Especialista em Educação Inclusiva (AEE/TEA), Psicopedagogia e Tanatologia. Fundadora da Tulha Ateliê Editora.
RESUMO
Este ensaio acadêmico analisa o processo de constituição do vínculo pedagógico em situações de desorganização comportamental e crise no contexto da Educação Inclusiva, tomando como aporte teórico-metodológico a Psicopedagogia Operativa e a Teoria do Link/Vínculo de Enrique Pichon-Rivière. A partir de um relato de experiência crítica em ambiente escolar, o estudo tensiona o paradigma tradicional que concebe o vínculo como um constructo dependente exclusivamente do tempo cronológico de convivência e do conhecimento prévio da rotina familiar. Aponta-se que a emergência do vínculo pode ocorrer de forma instantânea através da constituição de uma "Ponte Posicionada" — uma intervenção operativa caracterizada pela firmeza, pela modulação sensorial e pelo acolhimento diretivo. O texto demonstra como a reestruturação do Esquema Conceitual, Referencial e Operativo (ECRO) do mediador permite ressignificar o surto, transformando a crise de um evento disruptivo em um dispositivo de reconexão subjetiva, aprendizagem e mediação interpessoal, inclusive na articulação com os professores especialistas e a turma.
Palavras-chave: Educação Inclusiva. Vínculo Operativo. Pichon-Rivière. ECRO. AEE. Modulação Sensorial.
1. INTRODUÇÃO
A prática pedagógica no Atendimento Educacional Especializado (AEE) e na mediação da Educação Inclusiva depara-se, cotidianamente, com episódios de desorganização neurocomportamental severa. Historicamente, a literatura pedagógica e a práxis docente sedimentaram a crença de que a edificação do vínculo afetivo-pedagógico — condição sine qua non para a mediação eficaz — é fruto indissociável da convivência prolongada, da anamnese detalhada e do estreitamento de laços com a estrutura familiar do estudante.
Embora esse percurso gradual constitua uma dimensão relevante da investigação psicopedagógica, o presente ensaio propõe um tencionamento dessa premissa. Objetiva-se demonstrar que o vínculo não se restringe a uma acumulação cronológica, mas configura uma estrutura operativa emergente que pode ser pactuada no instante da intervenção, desde que o mediador assuma uma postura de firmeza acolhedora e de reordenação do campo caótico.
Para fundamentar essa análise, recorre-se ao referencial da Psicopedagogia Operativa de Enrique Pichon-Rivière, especificamente no que tange à dinâmica do Esquema Conceitual, Referencial e Operativo (ECRO) e à Teoria do Vínculo.
2. O CASO EMPÍRICO: A CRISE E O RUPTURA DO PARADIGMA
A cena que deflagrou a revisão conceitual tratada neste ensaio ocorreu no corredor de uma unidade escolar. Um estudante em estado de crise psicomotora e sensorial extrema promovia a desorganização do espaço físico, derrubando mesas, cadeiras e recipientes de lixo. A força vetorial da crise e o ruído gerado impunham aos profissionais presentes um estado de hesitação, medo e paralisia frente à iminência de lesões físicas.
Frente ao desamparo do ambiente, a intervenção ocorreu por meio de um ímpeto operativo não planejado previamente, contudo dotado de precisão mediacional. Ao adentrar a sala, a postura corporal firme e a emissão de um comando claro e imagético romperam o circuito da crise:
"Eu vou desenhar um monte de corações, bem ali naquela mesa que ainda está de pé. E você, vai fazer o que?"
O estancamento imediato do comportamento disruptivo e a fixação do contato ocular da criança validaram a passagem da reatividade para a adesão. Sequencialmente, ao recuar para o fundo da sala e ofertar comandos estruturados de organização espacial ("Coloque esta mesinha aqui, uma do lado da outra"), o estudante passou a atender a cada diretriz com precisão.
A eficácia dessa abordagem com um estudante com o qual o tempo de convivência era nulo e sobre o qual não havia histórico familiar prévio desconstruiu a crença de que o vínculo exige maturação temporal. O vínculo revelou-se, portanto, como uma ponte estabelecida na instantaneidade do ato de presença.
3. ANÁLISE TEÓRICA: A OPERACIONALIZAÇÃO DO ECRO PICHONIANO
A leitura psicopedagógica desse episódio encontra amparo na teoria de Enrique Pichon-Rivière (2005). O autor define o ECRO como o conjunto articulado de conceitos, referenciais e vivências que orientam a apreensão da realidade e a ação do sujeito no mundo.
O ECRO Preexistente: O esquema prévio da docente balizava-se na premissa do vínculo como construção lenta e familiar. Em situações de crise extrema sem histórico prévio, esse referencial apontava para o medo e o recuo defensivo.
A Ação Operativa: Diante do susto, ocorreu uma reestruturação do referencial interno. A tomada de decisão de aproximar-se com autoridade serena e propor uma tarefa simbólica e motora configurou uma operação transformadora do meio.
A Ressignificação Conceitual: O sucesso da operação (a criança saindo do caos e atendendo aos comandos) modificou retroativamente o conceito de vínculo no referencial da educadora.
O vínculo pichoniano, compreendido como uma estrutura complexa de comunicação e aprendizagem, provou ser prescritivo e imediato. Não foi a repetição temporal que conteve o surto, mas o posicionamento correto no tempo presente. A ordenação do espaço e a oferta de uma âncora simbólica (o desenho dos corações e a arrumação das mesas) funcionaram como reguladores externos da função executiva desorganizada do estudante.
4. DESDOBRAMENTOS PRÁTICOS: A "PONTE POSICIONADA" E A TRANSDISCIPLINARIDADE
A consolidação do conceito de Ponte Posicionada estende-se para além dos momentos de contensão de crise individual. No cotidiano escolar, essa postura atua como um elemento facilitador da transdisciplinaridade, como se observa nas aulas de Educação Física e componentes curriculares especializados.
Frequentemente, docentes especialistas sentem-se desprovidos de ferramentas pedagógicas para manejar as especificidades de estudantes com deficiências graves ou desorganizações sensoriais. Nesses cenários, a atuação da mediadora como ponte cumpre três funções simultâneas:
Modulação Direta: Acompanhar o estudante na realização das atividades motora e expressivamente.
Inclusão Paritária: Orientar os pares neurotípicos através de comandos claros sobre como auxiliar e interagir com o colega.
Tutoria Docente: Oferecer suporte técnico e comportamental ao professor especialista, criando um ambiente seguro para a regência da aula.
Dessa forma, o vínculo constituído não isola a criança com a mediadora, mas expande-se como um circuito de corresponsabilidade afetiva entre todos os atores da comunidade escolar.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência analisada demonstra que a inclusão escolar genuína não requer o domínio prévio de todas as variáveis e respostas teóricas, mas fundamenta-se na capacidade do educador de posicionar-se de maneira firme, empática e operativa.
A desorganização e a crise não devem ser lidas como barreiras intransponíveis ou fracassos do processo inclusivo, mas como convocatórias para a edificação de pontes. O aprendizado central extraído da práxis e respaldado pela teoria de Pichon-Rivière indica que a contenção do caos não exige o desmantelamento da estrutura, mas sim a presença serena de um mediador que se posicione no momento exato.
A "Ponte Posicionada" representa, em última análise, a fusão entre a intuição sensível e o rigor conceitual, garantindo que o estudante encontre no educador a segurança necessária para reorganizar seu estado interno, saindo da tempestade sensorial e reconectando-se com o ato de aprender.
REFERÊNCIAS
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. Teoria do Vínculo. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
PICHON-RIVIÈRE, Enrique. O Processo Grupal. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
13 outubro 2026
A NARRATIVA DO RABISCO: CORRESPONSABILIDADE E MODULAÇÃO SENSORIAL NO TEA
Rosi Ribeiro Jornalista, Pedagoga, Especialista em Educação Inclusiva (AEE/TEA) e Tanatologia. Fundadora da Tulha Ateliê Editora. RESUMO O presente Relato de Pesquisa descreve a metodologia e os resultados de uma intervenção pedagógica implementada em uma sala de aula regular, com foco na inclusão de uma aluna com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). O estudo objetivou integrar a teoria da Integração Sensorial (Ayres) com a mediação artística, transformando o mecanismo de autorregulação da aluna (o rabisco intenso) em uma via de comunicação e engajamento funcional. A criação de uma Narrativa Coletiva ("Uma Jornada Especial") envolveu a turma como coautora, estabelecendo o conceito de Corresponsabilidade Afetiva. Em um momento chave, a validação do rabisco pela conexão com a obra do artista Cy Twombly resultou na modulação de sinais de ansiedade e na maior adesão da aluna aos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) do AEE. Os resultados validam a narrativa coletiva como uma ferramenta eficaz de apoio pedagógico e social, reforçando o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI). Palavras-chave: TEA. Inclusão Escolar. Integração Sensorial. Narrativa Coletiva. Autorregulação. ABSTRACT This Research Report describes the methodology and results of a pedagogical intervention implemented in a regular classroom, focusing on the inclusion of a student with Autism Spectrum Disorder (ASD). The study aimed to integrate Sensory Integration theory (Ayres) with artistic mediation, transforming the student's self-regulation mechanism (intense scribbling) into a channel of communication and functional engagement. The creation of a Collective Narrative ("A Special Journey") involved the class as co-authors, establishing the concept of Affective Co-Responsibility. At a key moment, validating the scribble through its connection to the artwork of artist Cy Twombly resulted in the modulation of anxiety signals and greater adherence to the AEE's Functional Independence Protocols (PIFs). The results validate the collective narrative as an effective pedagogical and social support tool, reinforcing the Individual Development Plan (PDI). Keywords: ASD. School Inclusion. Sensory Integration. Collective Narrative. Self-Regulation. RESUMEN El presente Informe de Investigación describe la metodología y los resultados de una intervención pedagógica implementada en un aula regular, centrada en la inclusión de una estudiante con Trastorno del Espectro Autista (TEA). El estudio tuvo como objetivo integrar la teoría de la Integración Sensorial (Ayres) con la mediación artística, transformando el mecanismo de autorregulación de la estudiante (el garabato intenso) en una vía de comunicación y compromiso funcional. La creación de una Narrativa Colectiva ("Una Jornada Especial") involucró a la clase como coautora, estableciendo el concepto de Corresponsabilidad Afectiva. En un momento clave, la validación del garabato mediante la conexión con la obra del artista Cy Twombly dio como resultado la modulación de las señales de ansiedad y una mayor adhesión a los Protocolos de Independencia Funcional (PIFs) del AEE. Los resultados validan la narrativa colectiva como una herramienta eficaz de apoyo pedagógico y social, reforzando el Plan de Desarrollo Individual (PDI). Palabras clave: TEA. Inclusión Escolar. Integración Sensorial. Narrativa Colectiva. Autorregulación. 1. INTRODUÇÃO A inclusão escolar de estudantes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) exige o desenvolvimento de práticas pedagógicas que transcendam a simples presença física, focando na integração efetiva dos processos cognitivos, sociais e, fundamentalmente, sensoriais. A experiência escolar da criança com TEA é complexa, frequentemente marcada por desafios de autorregulação que se manifestam em comportamentos tidos como inadequados, mas que são, na verdade, mecanismos de comunicação e coping com a sobrecarga ambiental. Este Relato de Pesquisa descreve a implementação e os resultados do projeto literário "Uma Jornada Especial" em uma sala de aula regular, que teve como objetivo central transformar o mecanismo de autorregulação sensorial de uma aluna com TEA (denominada aqui como Navegante) — especificamente o rabisco intenso e repetitivo — em um potente catalisador para a aprendizagem, o engajamento e a corresponsabilidade afetiva da turma. O referencial teórico se apoia, sobretudo, na Teoria da Integração Sensorial (Ayres, 2005), que postula a importância da organização das sensações para o desenvolvimento e a aprendizagem, e em Vygotsky (2007), que sublinha o papel da interação social e da mediação cultural no desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. A prática pedagógica do Atendimento Educacional Especializado (AEE), com foco nos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) e na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), forneceu a estrutura de dados para análise dos resultados. 2. MÉTODO 2.1. Contexto e Participante O estudo foi realizado em uma sala regular de Ensino Fundamental I desde 2021. A participante focal, a Navegante, uma aluna com diagnóstico de TEA de nível 2 de suporte, apresentava um perfil sensorial marcado por alta sensibilidade tátil e auditiva, e buscava intensa estimulação oral (uso de mordedores) e motora, manifestada pelo rabisco repetitivo e intenso em superfícies. A coleta de dados ocorreu por meio de: (a) Observação participante; (b) Registro em diário de campo; (c) Análise da evolução dos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) do AEE; (d) Análise dos produtos artísticos e narrativos da turma. 2.2. A Intervenção: A Narrativa Coletiva A intervenção estruturou-se na criação do livro interativo "Uma Jornada Especial" em coautoria com toda a turma. O cerne da metodologia consistiu em: Validação do Comportamento de Autorregulação: Em vez de inibir o rabisco da Navegante, ele foi reconhecido como a "escrita da alma" e a linguagem da personagem central do livro. Mediação Artística: Introduziu-se a obra do artista Cy Twombly, cujas telas são marcadas por traços e garranchos repetitivos, estabelecendo uma conexão entre a arte moderna e o comportamento da aluna. Esta mediação ressignificou o ato do rabisco de uma estereotipia para uma forma de expressão artística legítima. Corresponsabilidade Afetiva: A turma foi incentivada a usar as "pistas" da Navegante (seus rabiscos, seus momentos de isolamento, possível uso do mordedor) para guiar o desenvolvimento da narrativa do livro, criando um ambiente de suporte mútuo, onde todos eram responsáveis pelo sucesso da jornada. 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO A intervenção demonstrou uma clara correlação entre a validação sensorial e o engajamento funcional e social. 3.1. O Ano da Lua e a Maré do Sentir O calendário nos diz que 2023 foi um ano regido pela Lua, e a jornada da Navegante refletiu essa regência. Como a Lua, que governa as marés, ela manifestou ciclos de recolhimento (necessidade de autoestimulação, como o bocejo profundo) e de expansão (maior participação social e aceitação de novas tarefas). A modulação sensorial foi o primeiro resultado observável: a ansiedade, frequentemente manifestada pelo bocejo, diminuiu quando a aluna percebia que sua necessidade de rabiscar e se autorregular era aceita e incorporada ao projeto. O rabisco, de ato isolado, transformou-se em um comportamento funcional dentro do contexto da narrativa coletiva. 3.2. Engajamento e Independência Funcional A validação da Navegante como coautora do livro impulsionou sua adesão aos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) do AEE. O interesse em contribuir com a narrativa serviu como um reforçador positivo (fundamento da ABA) para a aceitação de desafios em outras áreas, como a motricidade fina e a participação em atividades de grupo. A Corresponsabilidade Afetiva estabelecida com a turma criou um "sistema de apoio" social, reduzindo a sobrecarga da Navegante e facilitando sua participação em passeios e atividades externas. 4. CONCLUSÃO O Relato de Pesquisa demonstra que a intervenção pedagógica baseada na ressignificação da autorregulação sensorial, combinada com a narrativa coletiva e o estabelecimento da corresponsabilidade afetiva, é uma ferramenta poderosa para a inclusão de estudantes com TEA. A integração de teorias (Integração Sensorial, Vygotsky) com práticas artísticas e comportamentais (ABA) permitiu que a aluna Navegante evoluísse em seus PIFs, transformando o "rabisco" em um símbolo de sua voz e de sua integração à comunidade escolar. Sugere-se que futuras pesquisas explorem a aplicação desta metodologia em diferentes níveis de suporte do TEA, utilizando o produto narrativo como um mediador terapêutico e pedagógico. REFERÊNCIAS AYRES, A. Jean. A criança e a integração sensorial: compreendendo problemas sensoriais que afetam a aprendizagem. 2. ed. São Paulo: Memnon, 2005. VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Foto 01- momento de autorregulação e expressão motora contínua
Jornalista, Pedagoga, Especialista em Educação Inclusiva (AEE/TEA) e Tanatologia. Fundadora da Tulha Ateliê Editora.
RESUMO
O presente Relato de Pesquisa descreve a metodologia e os resultados de uma intervenção pedagógica implementada em uma sala de aula regular, com foco na inclusão de uma aluna com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). O estudo objetivou integrar a teoria da Integração Sensorial (Ayres) com a mediação artística, transformando o mecanismo de autorregulação da aluna (o rabisco intenso) em uma via de comunicação e engajamento funcional. A criação de uma Narrativa Coletiva ("Uma Jornada Especial") envolveu a turma como coautora, estabelecendo o conceito de Corresponsabilidade Afetiva. Em um momento chave, a validação do rabisco pela conexão com a obra do artista Cy Twombly resultou na modulação de sinais de ansiedade e na maior adesão da aluna aos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) do AEE. Os resultados validam a narrativa coletiva como uma ferramenta eficaz de apoio pedagógico e social, reforçando o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI).
Palavras-chave: TEA. Inclusão Escolar. Integração Sensorial. Narrativa Coletiva. Autorregulação.
ABSTRACT
This Research Report describes the methodology and results of a pedagogical intervention implemented in a regular classroom, focusing on the inclusion of a student with Autism Spectrum Disorder (ASD). The study aimed to integrate Sensory Integration theory (Ayres) with artistic mediation, transforming the student's self-regulation mechanism (intense scribbling) into a channel of communication and functional engagement. The creation of a Collective Narrative ("A Special Journey") involved the class as co-authors, establishing the concept of Affective Co-Responsibility. At a key moment, validating the scribble through its connection to the artwork of artist Cy Twombly resulted in the modulation of anxiety signals and greater adherence to the AEE's Functional Independence Protocols (PIFs). The results validate the collective narrative as an effective pedagogical and social support tool, reinforcing the Individual Development Plan (PDI).
Keywords: ASD. School Inclusion. Sensory Integration. Collective Narrative. Self-Regulation.
RESUMEN
El presente Informe de Investigación describe la metodología y los resultados de una intervención pedagógica implementada en un aula regular, centrada en la inclusión de una estudiante con Trastorno del Espectro Autista (TEA). El estudio tuvo como objetivo integrar la teoría de la Integración Sensorial (Ayres) con la mediación artística, transformando el mecanismo de autorregulación de la estudiante (el garabato intenso) en una vía de comunicación y compromiso funcional. La creación de una Narrativa Colectiva ("Una Jornada Especial") involucró a la clase como coautora, estableciendo el concepto de Corresponsabilidad Afectiva. En un momento clave, la validación del garabato mediante la conexión con la obra del artista Cy Twombly dio como resultado la modulación de las señales de ansiedad y una mayor adhesión a los Protocolos de Independencia Funcional (PIFs) del AEE. Los resultados validan la narrativa colectiva como una herramienta eficaz de apoyo pedagógico y social, reforzando el Plan de Desarrollo Individual (PDI).
Palabras clave: TEA. Inclusión Escolar. Integración Sensorial. Narrativa Colectiva. Autorregulación.
1. INTRODUÇÃO
A inclusão escolar de estudantes com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) exige o desenvolvimento de práticas pedagógicas que transcendam a simples presença física, focando na integração efetiva dos processos cognitivos, sociais e, fundamentalmente, sensoriais. A experiência escolar da criança com TEA é complexa, frequentemente marcada por desafios de autorregulação que se manifestam em comportamentos tidos como inadequados, mas que são, na verdade, mecanismos de comunicação e coping com a sobrecarga ambiental.
Este Relato de Pesquisa descreve a implementação e os resultados do projeto literário "Uma Jornada Especial" em uma sala de aula regular, que teve como objetivo central transformar o mecanismo de autorregulação sensorial de uma aluna com TEA (denominada aqui como Navegante) — especificamente o rabisco intenso e repetitivo — em um potente catalisador para a aprendizagem, o engajamento e a corresponsabilidade afetiva da turma.
O referencial teórico se apoia, sobretudo, na Teoria da Integração Sensorial (Ayres, 2005), que postula a importância da organização das sensações para o desenvolvimento e a aprendizagem, e em Vygotsky (2007), que sublinha o papel da interação social e da mediação cultural no desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. A prática pedagógica do Atendimento Educacional Especializado (AEE), com foco nos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) e na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), forneceu a estrutura de dados para análise dos resultados.
2. MÉTODO
2.1. Contexto e Participante
O estudo foi realizado em uma sala regular de Ensino Fundamental I desde 2021. A participante focal, a Navegante, uma aluna com diagnóstico de TEA de nível 2 de suporte, apresentava um perfil sensorial marcado por alta sensibilidade tátil e auditiva, e buscava intensa estimulação oral (uso de mordedores) e motora, manifestada pelo rabisco repetitivo e intenso em superfícies.
A coleta de dados ocorreu por meio de:
(a) Observação participante;
(b) Registro em diário de campo;
(c) Análise da evolução dos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) do AEE;
(d) Análise dos produtos artísticos e narrativos da turma.
2.2. A Intervenção: A Narrativa Coletiva
A intervenção estruturou-se na criação do livro interativo "Uma Jornada Especial" em coautoria com toda a turma. O cerne da metodologia consistiu em:
Validação do Comportamento de Autorregulação: Em vez de inibir o rabisco da Navegante, ele foi reconhecido como a "escrita da alma" e a linguagem da personagem central do livro.
Mediação Artística: Introduziu-se a obra do artista Cy Twombly, cujas telas são marcadas por traços e garranchos repetitivos, estabelecendo uma conexão entre a arte moderna e o comportamento da aluna. Esta mediação ressignificou o ato do rabisco de uma estereotipia para uma forma de expressão artística legítima.
Corresponsabilidade Afetiva: A turma foi incentivada a usar as "pistas" da Navegante (seus rabiscos, seus momentos de isolamento, possível uso do mordedor) para guiar o desenvolvimento da narrativa do livro, criando um ambiente de suporte mútuo, onde todos eram responsáveis pelo sucesso da jornada.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
A intervenção demonstrou uma clara correlação entre a validação sensorial e o engajamento funcional e social.
3.1. O Ano da Lua e a Maré do Sentir
O calendário nos diz que 2023 foi um ano regido pela Lua, e a jornada da Navegante refletiu essa regência. Como a Lua, que governa as marés, ela manifestou ciclos de recolhimento (necessidade de autoestimulação, como o bocejo profundo) e de expansão (maior participação social e aceitação de novas tarefas).
A modulação sensorial foi o primeiro resultado observável: a ansiedade, frequentemente manifestada pelo bocejo, diminuiu quando a aluna percebia que sua necessidade de rabiscar e se autorregular era aceita e incorporada ao projeto. O rabisco, de ato isolado, transformou-se em um comportamento funcional dentro do contexto da narrativa coletiva.
3.2. Engajamento e Independência Funcional
A validação da Navegante como coautora do livro impulsionou sua adesão aos Protocolos de Independência Funcional (PIFs) do AEE. O interesse em contribuir com a narrativa serviu como um reforçador positivo (fundamento da ABA) para a aceitação de desafios em outras áreas, como a motricidade fina e a participação em atividades de grupo. A Corresponsabilidade Afetiva estabelecida com a turma criou um "sistema de apoio" social, reduzindo a sobrecarga da Navegante e facilitando sua participação em passeios e atividades externas.
4. CONCLUSÃO
O Relato de Pesquisa demonstra que a intervenção pedagógica baseada na ressignificação da autorregulação sensorial, combinada com a narrativa coletiva e o estabelecimento da corresponsabilidade afetiva, é uma ferramenta poderosa para a inclusão de estudantes com TEA.
A integração de teorias (Integração Sensorial, Vygotsky) com práticas artísticas e comportamentais (ABA) permitiu que a aluna Navegante evoluísse em seus PIFs, transformando o "rabisco" em um símbolo de sua voz e de sua integração à comunidade escolar. Sugere-se que futuras pesquisas explorem a aplicação desta metodologia em diferentes níveis de suporte do TEA, utilizando o produto narrativo como um mediador terapêutico e pedagógico.
REFERÊNCIAS
AYRES, A. Jean. A criança e a integração sensorial: compreendendo problemas sensoriais que afetam a aprendizagem. 2. ed. São Paulo: Memnon, 2005.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
Foto 01- momento de autorregulação e expressão motora contínua através do rabisco em papel.
Foto 2 e 3 -Trazem o respaldo da arte moderna, ressignificando o traço repetitivo e o rabisco como linguagem estética legítima.
Foto 4- Ilustra o resultado final da intervenção com a turma, mostrando a corresponsabilidade afetiva e a integração do trabalho da aluna ao grupo.
12 outubro 2026
A VIDA EM TODO INSTANTE
Muito tempo sem aparecer por aqui... E preciso contar que foi um período intenso, corrido e marcado por muitas realizações — algumas profundamente felizes, outras dolorosamente tristes. A vida acelerou o passo e tive que aprender a lidar com cada movimento, buscando as conexões necessárias e com sentido verdadeiro.
Meu marido ficou muito doente e me dediquei integralmente à saúde dele. Isso foi primordial para mim; jamais o deixaria. Curti cada instante, cada segundo e, por mais doloroso que tenha sido, sou imensamente grata a Deus por tudo o que vivemos.
Por fim, em 21 de setembro de 2024, ele faleceu no ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo). Foi o dia mais difícil da minha vida. Como foi doloroso estar ali, debruçada sobre ele, vendo a sua respiração sumir, as mãos esfriarem... E assim ele se foi, deixando-me por aqui.
Essa dor já encontrava um terreno sensibilizado. Em 13 de maio de 2023, minha mãezinha partiu em decorrência de um câncer. Pouco depois, em 27 de maio de 2024, foi a vez do meu paizinho. Naquela noite, após o jantar, sentado na poltrona que pertencera à minha mãe, ele disse que Deus era muito bom — e simplesmente partiu. Em apenas um ano e quatro meses, perdi minha mãe, meu pai e meu marido.
Mas a vida continuou, exigindo que eu seguisse, mesmo despedaçada. Corajosamente, busquei respostas nos estudos e me especializei em Tanatologia. Precisava compreender o luto, acolher minhas dores e, acima de tudo, aprofundar os conhecimentos sobre Cuidados Paliativos — escolha que fiz com tanto amor para o meu querido João Francisco (em outro momento, prometo compartilhar mais sobre como foi esse processo).
Logo após a partida do João, decidi resgatar dos rascunhos uma história escrita em 2016 — um cenário real que criei na época para dar conta da sala de aula que eu regia. Aquele projeto guardado na gaveta ganhou vida e se transformou em um lindo livro: O Castelo de Porta Amarela.
Inclusive, você pode adquirir o seu exemplar diretamente por aqui! Basta clicar na imagem do livro, na barra lateral do blog. Tenho certeza de que você vai se emocionar.
Acompanhe por aqui os próximos capítulos da minha jornada pessoal, literária e acadêmica. Sejam muito bem-vindos de volta!
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