23 outubro 2026

A FÉ QUE NOS MOVEU: O PARAPEITO, A ESPERANÇA E O COLO DE DEUS

 


A fé é essa força soberana que devolve a esperança, a vontade de continuar vivo e a certeza de que ainda é possível andar, respirar e recomeçar.

Foi assim em 2019, quando meu marido precisou passar pela retirada de mais de 70% da língua por conta de um câncer raro, agressivo e avassalador — fruto de anos e anos de um uso frequente e contínuo do cigarro. Eram três maços por dia. Absurdo, mas era assim que acontecia. Ele costumava me dizer:— Preta, eu não saio de casa, eu só trabalho, não faço nada de errado... O que eu mais gosto é fumar, me deixa fumar...

Ele era extremamente respeitoso. Não fumava dentro de casa, não fumava no carro e nem no espaço de quem não fumava. E eu o amava infinitamente. Por conta desse amor visceral, eu brigava, discutia e implorava para que ele deixasse o vício.

A cirurgia foi gigantesca. Tiveram que esvaziar a região até a jugular para impedir que a doença avançasse. Naquele dia, vivi o horror de ficar mais de dez horas na porta do Centro Cirúrgico, esperando boletins de hora em hora. A sala de espera estava cheia pela manhã; com o passar do tempo, as pessoas foram indo embora e eu fui ficando... até que precisei me deitar naquele sofá, enquanto a equipe continuava trazendo notícias apenas para mim. Eu estava em um vazio indescritível.

Quando me colocaram de frente com ele, na antessala, assustei-me. Ele estava muito inchado. Mas, ainda assim, fez menção de procurar a minha mão. Eu o grudei ali, com toda a força da minha alma, e fomos juntos para o quarto.

A foto que ilustra esta memória foi feita dias depois. A fisioterapeuta o tirou do leito para andar um bocadinho e eu o acompanhei, passo a passo. No meio do caminho pelo corredor, ele mirou a luz de uma janela e, debruçado no parapeito, de mãos postas, se derramou diante do Senhor em pura oração e agradecimento.

Engoli o choro. Fiz-me forte, inabalável. Posicionei-me a poucos passos e apenas o observei. Meu coração se encheu de uma alegria indizível ao vê-lo ali, entregue e alinhado ao Pai. Ele tinha acabado de vencer a primeira e mais difícil batalha — mal sabíamos que teríamos muitas outras pela frente.

O que importou naquele instante foi a fé dele. E foi essa mesma fé que nos fez caminhar, juntos, por mais cinco anos de vida, amor e presença.

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé."

— 2 Timóteo 4:7

A fé nos moveu ontem, nos sustentou ao longo do caminho e continua nos movendo hoje. 🕊️✨

Profa. Rosi Ribeiro — Psicopedagoga e Editora

ORCID: https://orcid.org/0009-0005-7144-7656