29 outubro 2026

Trançando Vidas: Quando o Papel Virou Sobrevivência e Amor.



Em 1998, o mundo sob os meus pés começou a tremer. Lembro-me com clareza dos primeiros sinais de preocupação no rosto do meu marido. A empresa em que ele trabalhava ia de mal a pior, os pagamentos atrasavam até parar de vez, e a angústia de ver as contas acumularem tomou conta da nossa casa. Nossos filhos ainda eram pequenos e estudavam em colégio particular. O desespero de querer dar conforto a ele, de ver um homem dedicado se desdobrando ao máximo sem receber o prometido, me cortava a alma. Éramos recém-chegados a São Paulo, e o medo da cidade grande só deixava tudo mais tenso.

Eu precisava fazer alguma coisa. Não podia ficar de braços cruzados vendo quem eu amava se afundar na dor de não conseguir sustentar a própria família.

Corri para o centro de São Paulo atrás de oficinas e saídas. Foi quando me deparei com um curso de cestaria de jornal. Pedi para ele dar um jeito de pagar aquele curso, e fui. Ali nascia algo maior do que eu imaginava. De tanto pesquisar e percorrer home centers, fechei uma parceria com a Sherwin-Williams do Brasil para conseguir materiais e tintas. Eu precisava ajudar.

Em 2003, quando a empresa onde ele trabalhava faliu de vez e ele se viu sem chão, a cestaria virou o nosso refúgio. Mas até a tempestade passar, os dias foram duríssimos. Chegamos a revirar sacos de lixo nas ruas de Osasco em 2002. Ele não suportou a humilhação; vi meu marido chorar em tantas noites que meu coração parecia rasgar. Veio o alento no álcool, os desentendimentos, a distância. Nossos filhos foram para o interior com meus pais, e ele também voltou, fragilizado e morando com os sogros.

Eu fiquei sozinha em Osasco, na luta diária da catança e dos jornais. A distância doía. Eu sempre fui enlouquecida por aquele homem. Cometi minhas falhas e erros ao longo da vida, mas nunca, em momento algum, deixei de amá-lo.

Quando minha sogra me pediu socorro, preocupada com o estado dele, não pensei duas vezes. Liguei, contei uma linda história de conquistas que ainda nem existiam e jurei que daríamos certo. Pedi para ele voltar. E ele voltou.

Juntos, pegamos um sobrado simples em Osasco, reformamos com as próprias mãos e abrimos o Nosso Ateliê. Ali, trançando jornal, pintando peças em cores vivas e tecendo fuxicos, reconectamos nossa vida. A cestaria deixou de ser apenas papel trançado: virou fonte de renda, ponte com pessoas incríveis, instrumento de sobrevivência e a re-fundamentação do nosso casamento.

Aquele jornal que muitos descartavam foi a matéria-prima que reconstruiu a nossa dignidade e o nosso amor.











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