25 abril 2006

No mês de Junho, precisamente no dia 12, o Centro de Apoio, através das crianças do Peti(programa de erradicação do trabalho infantil),farão parte de um espetáculo "Eis que morro Drumond do morro", no teatro municipal de Osasco.
Estamos, todos, estudando Carlos Drumond de Andrade e o espetáculo que envolverá coreografias, poesias,música, acontecerá às 18:00,com um debate no final,sobre responsabilidade social.

José


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Essa poesia faz parte do roteito do espetáculo.


Carlos Drummond de Andrade (1942)
IN Poesia Completa, Rio, Nova Aguilar, 2002, p. 106.

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