21 agosto 2007

Carlos Matuck

É um dos precursores do graffiti na cidade de São Paulo. No final dos anos 70, com Alex Vallauri e Waldemar Zaidler, começou a carimbar imagens pela cidade quando só existiam palavras - poesias espalhadas pelos muros. Depois da Bienal de 85, nunca mais grafitou na rua, porém, a linguagem nunca deixou sua vida. Matuck é artista plástico, desenvolve uma série de trabalhos com estênceis em seu ateliê. Como os seus recortes, graffitis-portáteis, que são vendidos em lojas de design. Colecionador cuidadoso, guarda em pequenas caixas: selos, carimbos, lembranças de um passado. Apaixonado por histórias em quadrinhos, é obcecado pelo personagem TinTin; chegou até a traduzir as entrevistas que o quadrinista belga Hergé deu. Sente saudades de um muralismo que não fez na rua. Apesar de já ter realizado em outros espaços. Atualmente, está construindo o maior mural de sua vida: cerca de 320 metros quadrados para o SESC.
Maiá: Quando você começou a grafitar? Já conhecia o Alex Vallauri?
Matuck: Conheci o Vallauri no ateliê do Rubens Matuck, meu irmão mais velho. Não lembro exatamente a data: foi por volta de 75 / 76…Eu já vinha trabalhando com carimbos de borracha, marmorizações, recortes, usava bastante o estilete.

Maiá: Como surgiu o carimbo no seu trabalho?
Matuck: Acho que foi o contato com a gravura, porque são linguagens próximas. Fiz um curso de gravura em metal com o Sérgio Fingermann. E comecei a colecionar carimbos, com os quais brincava porque tinham uma certa agilidade em relação à gravura.

Maiá: Eram os carimbos da fábrica Dulcemira?
Matuck: Estes apareceram mais tarde. Os primeiros carimbos eram mais baratos; conseguia comprar. Eram carimbos escolares, infantis, de bichinhos. Tinha uma caixa enorme com 100 carimbos: coelho, balão, pipa…bem antiga, de quando era criança. Eu fazia um trabalho mais moderno, usando carimbos como recurso gráfico e plástico. Fazia estênceis rudimentares para carimbar. Com o Vallauri, conheci os carimbos da fábrica Dulcemira, na Rua Aurora, que eram usados em papéis de embrulho de padaria, mercado…Os carimbos de borracha são utilizados num processo de impressão em anilina muito rudimentar; como clichês. Muitas das figuras que o Vallauri e eu usávamos vieram da fábrica Dulcemira: as vedetes, o frango assado…

Maiá: Você já relacionava os carimbos com os estênceis?
Matuck:
Não. Eu relacionava o carimbo com a colagem. No meu caso, recortava e colava imagens carimbadas. Por isso, a colagem e o carimbo andavam juntos. Meu trabalho com a marmorização, por volta de 77, era mais um passo em direção ao estêncil. Percebi que dava para colocar um estêncil em cima da água preparada e marmorizar só aquela área como se faz na gravura.

Maiá: Como foi a parceria com o Vallauri?
Matuck:
Nossa primeira conversa foi sobre carimbos. Depois, conversamos sobre quadrinhos. Sou um apaixonado por quadrinhos.

Maiá: Em 1977, o Vallauri já pintava na rua?
Matuck:
Ele já fazia umas imagens na rua, enquanto, na Lapa, no ateliê que era na garagem da casa dele, fazia estamparia com xilogravura.

Maiá: Você reparava no que estava sendo feito nas ruas?
Matuck:
Na verdade, via as imagens do Alex. Comecei a prestar atenção quando ele falou de seu trabalho, embora já conhecesse as inscrições como o Cão Fila. E outras palavras escritas de uma maneira interessante, como, por exemplo: É difícil, Maria Clara quero a gema.

Maiá: Era palavras-poesia…
Matuck:
Tinha também a Hora H, do Tadeu Jungle. Eram palavras gráficas que se relacionavam com a poesia concreta.

Maiá: E o seu primeiro graffiti? Quando foi?
Matuck:
Foi em 1978. Não foi uma novidade, porque já fazia recorte com estilete em papel no ateliê. Nunca usei tesoura no meu trabalho. A novidade foi o uso do spray. Fui obrigado a perceber como usá-lo. Demorei a entender como fazer para não estragar o trabalho, não deixar o spray escorrer. Como o Vallauri tinha muita prática, aprendi muito com ele.

Maiá: Seus primeiros graffitis foram o Reizinho e o Tintin???
Matuck:
Sim. Os primeiros estênceis e carimbos que fiz têm uma relação direta com quadrinhos. E o Vallauri também fez a Panterinha do Jim das Selvas, do desenhista Alex Raymond.

Maiá: Como era sua relação com o Vallauri?
Matuck:
É difícil falar do Vallauri. Ele era uma figura maravilhosa. Lembro claramente o que nós vivenciamos juntos, as noites que passamos no ateliê, brincando com os carimbos, ou só conversando…Vallauri era uma figura de altíssimo astral, super engraçada. Eu era um moleque quando começamos a trabalhar juntos e ele já era um artista. O Vallauri abriu um espaço para trabalhar como parceiro e não como assistente. Logo, começamos a criar graffitis.

Maiá: Ou seja, eram parceiros?
Matuck:
É, fomos parceiros. Lembro das tardes que passamos juntos criando máscaras. Desenhar com outra pessoa é difícil e, mesmo assim, fizemos várias máscaras.

Maiá: Como era criar graffitis em grupo?
Matuck:
O Vallauri fazia uma daquelas vedetes dos anos 50…Às vezes, fazia uma mocinha sentada numa cadeira chaise longue (espreguiçadeira) que falava ao telefone. Aí, eu fazia um homem dando flores para ela, como se fosse um namorado, um pretendente. Ele fazia uma figura e eu outra.

Maiá: Eram à mão livre?
Matuck:
Eu fazia à mão livre. O Vallauri fazia meio misto: Aplicava as luvinhas, as botinhas, o telefone e completava o resto à mão livre, formando uma vedete falando ao telefone.

Maiá: Qual era o grande atributo do estêncil?
Matuck:
O trabalho com estêncil sempre é menos espontâneo porque já tem a imagem pronta. Por isso, era possível ser mais crítico em relação à cidade; pensar melhor na intervenção. A escolha do lugar era pensada de antemão, porque já tínhamos o tamanho da imagem, ou seja, sabíamos se funcionaria ou não num determinado local. Também levávamos em conta a direção do pedestre, do carro e a cor da parede. A imagem precisava estar inserida dentro do contexto da cidade. No fundo, foi isso que nos levou a fazer graffiti.

Maiá: Você só grffitou com o Vallauri e o Zaidler?
Matuck:
Sim. Fazer graffiti sozinho não tem muita graça. A não ser que você seja um obsessivo como o Vallauri, porque, para ele, não havia dia ou horário certo. Ele era o andarilho; a bota era quase uma metáfora dele mesmo. Sempre andava a pé ou de táxi com uma bolsa pendurada cheia de máscaras e spray. São famosas suas máscaras feitas com capa de disco antigo. A bota é a capa e a contra-capa de um velho vinil aberto e recortado que ele dobrava e colocava na bolsa. Ele gostava de pintar de dia, eu sempre pintei à noite.

Maiá: O Vallauri precisava carimbar a cidade mais do que vocês?
Matuck:
Muito mais. Eu não tinha essa vontade obsessiva de sair toda semana. Eu era carregado para a rua pelo Vallauri. Se deixasse, ele sairia todo dia. Conseqüentemente, o Zaidler e eu também nunca iríamos parar de grafitar. Para mim, grafitar toda hora, não era fácil.

Maiá: Como assim?
Matuck:
Eu também queria ficar no ateliê: pintar, desenhar, colar; ficava dividido com essa demanda. Além disso, o Zaidler e eu tínhamos um outro graffiti diferente daquele que fazíamos com o Vallauri.

Maiá: Qual era a diferença?
Matuck:
O nosso trabalho era inteiramente feito com máscara. Do ponto de vista formal, era mais rigoroso, pensado e menos espontâneo. Para o Vallauri, as máscaras eram apenas um veículo para fazer as maluquices dele. Por isso, eram mais descartáveis, menos elaboradas, mais rápidas e diretas. Além do que o graffiti do Vallauri tinha mais humor. O nosso tinha humor mas era diferente. Ele tinha uma paixão por Cuba, pela música cubana e pelas mulheres dos anos 50. Era tudo muito divertido.

Maiá: Havia alguma preocupação com o espaço público e as mensagens?
Matuck:
Nós tínhamos clareza de que não deveríamos escrever. Nossa praia era fazer intervenções urbanas. Fazíamos cenas, brincadeiras, sempre com humor. Houve também a influência da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) e da parceria com o Zaidler, um velho amigo que conhecia desde criança. O Zaidler se formou na FAU. Acompanhei de perto o TGI (trabalho de conclusão de curso) dele, fizemos a parte de imagens juntos. Esse fato trouxe para o grupo uma preocupação com a cidade, no sentido da intervenção urbana. A leitura do espaço urbano tornou-se mais diferenciada, sofisticada. Questões como " Onde se aplica um graffiti? E onde não se aplica um graffiti?" , apareceram.

Maiá: Como foi a entrada do graffiti nas galerias?
Matuck:
Como o graffiti evoluiu e ficou na moda, já em 79 / 81, as galerias começaram a puxar-nos para dentro delas. Era complicado porque já éramos artistas plásticos e sabíamos que o graffiti não tinha nada a ver com isso. Em todas exposições, tentamos evitar o nome graffiti, não conseguimos.

Maiá: Como assim?
Matuck:
A primeira exposição que fizemos na Galeria São Paulo, em dezembro, de 1983 - eu, o Vallauri e o Zaidler - chamava-se Mural Graffiti porque, para nós, a exposição em galeria não era grafite, era mural. Como os curadores queriam colocar a palavra graffiti, então, ficou Mural Graffiti. O graffiti é uma intervenção apropriatória do espaço; é uma contravenção. Ou há uma especificidade na linguagem ou não há. Ou é graffiti ou não é.

Maiá: E a repressão?
Matuck:
Não sofremos. Mas tenho amigos que apanharam da polícia. Não há nenhum episódio com a polícia que tenha me marcado. Entretanto, estava sempre preparado para fugir…

Maiá: Como foi a evolução do graffiti? Tinha as máscaras simples do Vallauri…
Matuck:
A evolução foi muito rápida. Quando as máscaras apareceram, sofisticaram-se rapidamente. A partir daí, começamos a usar grampo para conseguir uma imagem com recortes, sem ponte. Surgiu quase naturalmente.

Maiá: E as diferenças de estilo?
Matuck:
Quando aconteceu a 18 º Bienal de 1985, as diferenças ficaram claras. O Vallauri fez A Rainha do Frango Assado, eu fiz Joaquim, Mário e Affonso, uma homenagem à três escritores negros do Brasil e o Zaidler fez A Cadeira. Na Bienal, foi possível ver como as imagens se encontraram e se distanciaram também. Nunca mais pintei na rua depois da Bienal.

Maiá: Por que você parou de grafitar?
Matuck:
Na rua, parei em 1985, mas nunca parei de grafitar. Continuei fazendo murais, painéis, telas, sempre usando o estêncil. Meu trabalho ficou muito complexo, cheio de detalhes, inviável de fazer na rua. Já fazia imagens visando um muralismo que não aconteceu. Apenas, em espaços institucionais, como o SESC.

Maiá: Você não tem mais vontade de grafitar na rua?
Matuck:
Não tenho… acho que a cidade mudou muito. Não me sinto mais atraído, não tenho mais vontade. Já tive muita vontade de fazer murais urbanos mas acho que não tem muita chance de acontecer em São Paulo.

Maiá: Como você vê o graffiti hoje?
Matuck:
Não sei dizer, porque não acompanho muito. Vi graffitis pontuais dos Gêmeos, do Beco Escola Aprendiz e do Mural da 23 de maio. Veio outra geração que tomou conta, e está bem na mão deles.

Maiá: Foi-se o seu tempo da rua?
Matuck:
Com certeza. Ainda hoje, utilizo tudo que aprendi na rua. Meu trabalho está relacionado com os graffitis que fiz naquela época, com os quadrinhos que li, os carimbos com que brinquei, as colagens e desenhos que fiz. Descubro sempre novas possibilidades com o estêncil.

Maiá: Você tem algum graffiti afetivo, uma máscara especial?
Matuck:
Tenho um Tintin bem antigo de que gosto muito. Virou um objeto, porque a máscara está tão pintada; é uma crosta de tinta… Guardei várias máscaras que são históricas. Por exemplo, o peão. Tenho todas as versões que fiz dele. O peão foi uma máscara que fiz mas nunca pintei…Na realidade, ela tinha a ver com o trabalho do Alex. Por isso, ele ficou com ela. O Alex sempre fazia em baixo da acrobata inspirado no Seurat.
Entrevista realizada pela jornalista Maiá Prado, dia 24 de julho de 2005.
Hudinilson Jr.
Waldemar Zaidler

E por falar em máscaras, que são oficinas que estão acontecendo no Caca, tanto no Projeto Intervenção Urbana, com o Fhero e aí existe é claro, a utilização dos sprays, quanto nas minhas oficinas, com o projeto Arte aos Pedaços, usando papel jornal, balões e cores mil, aí está uma super matéria sobre máscaras/stencil,com sprays, na forma do grafitti. Vale a pena conferir.



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