31 outubro 2012

Hoje é Quinta feira e toda quinta teremos assuntos voltados ao tema Bem estar.
Achei essa matéria e decidi compartilhar.Que nos sirva de apoio ... que possamos refletir.
Tenham uma linda Quinta feira.




Soninha Francine – jornalista, apresentadora de TV

A filha de Soninha, Julia, sofreu de leucemia em 2004, então com 7 anos. Com a ajuda da mãe e familiares, a menina superou os problemas e dificuldades e hoje está curada. 
Dizer, rir, confiar
O que aprendi quando a Julia teve leucemia
Era sexta-feira.
O telefone tocou mais cedo do que de costume. Era o homeopata da família, muito preocupado. No começo da semana, havíamos levado a Julia, nossa filha de 7 anos, para uma consulta. Ela tinha vários hematomas na perna, nos braços e no tronco que pareciam não sarar nunca. Para alguns, havia explicação convincente: "Tropecei e caí; levei um chute no jogo; bati na quina da mesa". Para outros, não: "Uma menina esbarrou em mim". A menos que fosse um tranco violento, não deixaria uma mancha roxa como aquela.
Marquei o médico pensando que, entre várias outras coisas, podia ser leucemia. Eu já havia feito várias reportagens e entrevistas sobre o assunto, participado de campanhas em benefício de instituições que tratam câncer infantil, escrito textos para a internet convidando as pessoas a se cadastrarem como doadoras de medula. Em algum desses momentos, soube que manchas roxas persistentes podem ser um indicativo da doença.
Comentei a suspeita com uma amiga, que me deu uma bronca: "Vira essa boca pra lá!". "Mas pode ser, oras. E se for? Ninguém quer ouvir essa notícia mas tem gente que ouve, né?".
O homeopata pediu um hemograma (exame de sangue) para – como todos gostaríamos – afastar a suspeita. Mas naquela manhã, ao telefone, nos avisou que haviam ligado para ele do laboratório, preocupados com o resultado. "Vão o quanto antes para o Pronto Socorro do HC e peçam para fazer um novo exame".
Tiramos a Julia da cama apreensivos. Passamos o dia no Pronto Socorro, entre longas esperas e novos exames. No começo da noite, uma médica apalpava ela com cuidado, com medo de feri-la. Pouco depois, nos chamou – eu e o pai dela – a uma sala fechada e proferiu, com o maior cuidado, a palavra "leucemia".
E eu pensei que estava preparada.
Eu teria inventado, ali, a expressão "o chão se abriu sob os meus pés", se ela já não existisse. A Julia ficaria internada, recebendo medicação e transfusões. Ainda não era possível saber exatamente o tipo de leucemia (eu nem sabia que há vários tipos), mas já se podia prever uma longa internação. "Ela tem irmãos?". Talvez ela precisasse de um transplante de medula. "Só meias-irmãs". Se ajudasse, eu teria outro filho!
Os médicos recomendaram que fôssemos para casa enquanto ela dormia, se recuperando de um exame horrorosamente dolorido, para o qual tomou sonífero. Saímos atordoados. O celular do pai tocou; um amigo convidava para uma pizza. "Não vai dar, a Júlia ta com uma doencinha chata...". "Fala o que é!". Descobri, para começar, que a palavra "leucemia" não podia ser proibida. Era só uma doença, como tantas outras cujos nomes são ditos sem pudor, sem vergonha. Enquanto arrumávamos a mala em casa, minha filha mais velha soube o que estava acontecendo e foi para o hospital. Chorou pra burro no ponto de ônibus; chegou ao HC já recomposta. Quando voltamos para lá, encontramos as duas irmãs no quarto – rindo. Rindo muito. A mais velha brincava com os furos todos pelo corpo, resultado dos muitos exames, e dizia que a sopa ia vazar por eles. A mais nova se deixou levar pela palhaçada.
Segunda lição: rir não cura, mas ajuda.
Na manhã seguinte, acordei sem energia para nada, a não ser para chorar. Minha cara no espelho era assustadora – e decidi que minha filha não podia me ver daquele jeito, e não veria. Lembrei do quanto sempre me orgulhei de ser durona com dor; a dor era dela e não minha, o que era muito pior. Mas eu precisava estar forte. E resolvi que não ia mais chorar. Não ia querer chorar. E melhorei imediatamente.
Por sorte, a Julia pôde passar o domingo em casa, antes de ser internada em definitivo. Chamamos a família toda para almoçar e ela fez um cartaz para colocar na porta: "Atenção, lavem as mãos. E nada de beijos – viu, tia Tânia?", com um desenho divertido. Assim, não precisávamos fingir que nada estava acontecendo, nem fazer recomendações sussurradas, furtivas. Temos uma criança doente, sim; é preciso tomar cuidado com ela. Mas o almoço foi gostoso, apesar da tristeza escondida.
No dia seguinte, ela entrou no ITACI. As crianças internadas falavam abertamente sobre enjoo, ficar careca, fazer exames. Arrastavam os suportes com soro como se fossem cachorrinhos, com nome e tudo. Logo eu e a Julia passamos a fazer parte daquela turma, unidos naquele desafio. As mães explicavam a rotina e as regras; as enfermeiras e médicos também faziam questão que eu entendesse tudo. Saber o que vai acontecer , como e por quê é muito bom.
Enquanto eu estava lá, o mais importante para mim era a confiança – que é diferente de esperança. Confiança é a certeza de que tudo está sendo como tem de ser, dali em diante – não adianta querer mudar o passado e amaldiçoar o presente. É a certeza de que todos estão fazendo a sua parte da melhor maneira possível – inclusive você. E a minha parte era também dar confiança a Julia, de que ela seria forte para suportar aquilo tudo.
Hoje ela está curada. Ainda passa pelo hospital a cada seis meses; faz parte da nossa vida, sem problema nenhum. Tem uma enorme cicatriz no peito, e não se importa nem um pouco com ela.

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