23 março 2008



Luxo do lixo
Os benefícios da reciclagem vão além da preservação ambiental.
Por Claudia Gisele
Fotos Marcelo Cabral
Considere o seguinte roteiro: da prateleira do supermercado, a garrafa do tipo PET (polietileno tereftalato) de refrigerante vai direto para a mesa. Bebida consumida, a garrafa é lavada, dobrada e reservada em uma sacola juntamente com outros recipientes plásticos. O material é entregue em postos de coleta e, depois, levado para reciclagem. O ciclo se fecha quando a garrafinha PET é novamente destinada à venda, mas, dessa vez, reformulada em produtos como roupas, componentes automotivos, bolsas ou carpetes. Papel, papelão, plástico, latas, vidros, embalagens longa-vida, madeira, metais, tudo pode - e deve - ser reciclado. O lixo reciclado não é luxo: é sinônimo de preservação ambiental e de geração de renda.Na prática, poucas casas cultivam o hábito de colaborar com o ciclo da reciclagem. A falta de estrutura dos municípios para realizar coleta seletiva do lixo é um dos motivos disso, assim como a falta de conscientização dos agentes que poderiam atuar no processo (consumidores, empresários e comerciantes). Para se ter uma idéia, das 15.000 toneladas de lixo recolhidas diariamente pelo Departamento de Limpeza Urbana da prefeitura de São Paulo, apenas 0,6% é proveniente de serviços de coleta seletiva - sendo que 35% do material recolhido poderia ser reciclado. Para quem não conta com esse tipo de serviço em sua rua, existe a possibilidade de entregar o que separou para reciclagem em postos de coleta. Caso não faça isso, o lixo de casa irá para aterros sanitários, os lixões. São Paulo possui cinco aterros desativados e dois aterros em funcionamento, que recebem cerca de 60% do lixo da cidade. Os aterros sanitários são considerados ecologicamente corretos, pois são construídos em terrenos impermeabilizados e, quando têm sua capacidade esgotada, são cobertos e mantidos sob manutenção para que não venham ofereçam risco à saúde. Já os lixões a céu aberto são ameaças diretas à saúde da população e à natureza, pois podem contaminar a água de rios, córregos e lençóis freáticos. Há, ainda, o problema da decomposição do lixo, que libera gases tóxicos no ambiente e colabora para a proliferação de moscas, baratas e ratos, que são transmissores de várias doenças. Segundo a Fundação Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, o armazenamento inadequado do lixo colaborou para a incidência de duas recentes epidemias no Brasil. Em 1982, foram registrados 12 mil casos de dengue no Norte do país e, em 1998, mais 527 mil casos em todo o Brasil. A cólera também gerou números alarmantes. Entre 1991 e 1994 foram verificados cerca de 53 mil casos de pessoas infectadas pelo vibrião colérico. A construção de aterros sanitários e a criação de serviços de coleta seletiva amenizaram os problemas de saúde pública, mas não resolveram o problema. A reciclagem de materiais sólidos, sim, é considerada uma solução eficiente para o tratamento do lixo. Quanto aos resíduos orgânicos, o processo de compostagem, que transforma restos de comida e de jardinagem em adubo orgânico, é considerado a melhor possibilidade para tratamento do lixo doméstico. Mas há carência de investimento nessa área, diferentemente do que acontece com o lixo sólido reciclável. No Brasil, graças à estrutura de indústrias especializadas, alguns produtos atingem níveis de reciclagem condizentes com o de países desenvolvidos. O plástico, o papel e as latas de aço são os campeões, segundo o Compromisso Empresarial para a Reciclagem. A média brasileira de reciclagem do papel e das latas é de cerca de 35%. Quanto ao plástico, cerca de 17% é reciclado, enquanto na Europa o índice é de 22%. A diferença existe porque na Europa a coleta seletiva e a reciclagem são obrigatórias. Todo o esforço em aumentar os índices de reciclagem é para que os aterros e lixões sejam poupados, sem mencionar o fato de essa ser uma atividade lucrativa para o mercado. No entanto, vale ressaltar que a reciclagem não é solução para todos os problemas ambientais. Preservar a natureza é uma questão de atitude pessoal, mas que necessita de consciência social para funcionar. l Reciclagem no EmporiumQuem mora nas imediações de Moema e Vila Nova Conceição conta com novas opções de postos de coleta de produtos para reciclagem. As lojas do Emporium, através de parceria com o Instituto Brasileiro de Direito Ambiental (Ibrada), está investindo em conscientização ambiental. Além de recolher e encaminhar o material para indústrias de reciclagem, o Emporium quer organizar ações de conscientização dos consumidores e funcionários. "Mais que um ponto de coleta, o Emporium será um ponto de idéias", afirma a presidente do Ibrada, Katy Corban. "O ambiente do supermercado, por estar está ligado à rotina das pessoas, pode ser utilizado para disseminar uma cultura de consumo consciente." A arrecadação de recicláveis incluirá resíduos sólidos que contêm elementos tóxicos, como pilhas e baterias. Por conterem alto índice de metais - mercúrio, chumbo e cobre -, elas são consideradas perigosas à saúde. Organize seu lixoAntes de entregar o lixo para reciclagem, alguns cuidados que facilitam o processo de coleta e reciclagem de produtos devem ser tomados. Confira nossas dicas. Elas podem ser praticadas em sua casa: Todo produto destinado à reciclagem deve ser lavado; Em casa, latas, garrafas, sacolas, embalagens longa-vida e vidros devem ser enxaguados e, depois, reservados; Diminuir o volume facilita a ação de quem for separar os produtos. Por isso, as embalagens devem ser sempre dobradas ou amassadas; Produtos orgânicos (restos de comida, cascas, grama) devem ser separados dos resíduos sólidos; Os produtos devem ser separados por tipo. Papel com papel e vidro com vidro; Bandejinhas do tipo isopor e embalagens de produtos de limpeza, depois de lavados, podem ser reservados com outros plásticos.

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